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Grandes Nomes

 

 

José Lucena

1. O professor José Lucena (notas biográficas)
2. O professor Lucena visto pelos alunos e colaboradores
3. Nova visão panorâmica da produção científica de José Lucena
4. Cronologia de obras
5. Referências

1. O professor José Lucena (notas biográficas)


‘O professor Lucena, o mais expressivo representante dessa Escola (do Recife), tem mantido a chama acesa e dado prosseguimento à obra de seu antecessor. ’

Othon Bastos


‘O pensamento do professor Lucena manteve-se bastante fiel às características da Escola Psiquiátrica orientada pelo professor Ulysses Pernambucano.’

Galdino Loreto apud Éverton Sougey


‘... mas, foi na obra de Lucena que a Escola Psiquiátrica do Recife corporificou-se, em sistemática e estrutura.’

Éverton Sougey


No exame dos discípulos diretos de Ulysses Pernambucano que propusemos empreender, resta-nos focalizar as atenções para aquele que, formalmente, viria a ser considerado o sucessor do professor Ulysses, no campo psiquiátrico sensu strictu, sobretudo por ter assumido a Cátedra de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade do Recife (atual UFPE) – em 1952, embora não tenha vindo a suceder Ulysses Pernambucano, que nunca ocupou esta cátedra (vide capítulo anterior desta obra, 2.8). Trata-se de José Cavalcanti Lucena da Mota Silveira, ou simplesmente José Lucena; nascido em 20 de fevereiro de 1909, em terras do engenho Paróis, Murupé de Vicência, então município de Nazaré da Mata, na zona da mata pernambucana. Lembremos que nos documentos oficiais consta 1908 como ano de nascimento porque teve de ‘aumentar’ a idade para ingressar no curso médico em Salvador. Descendia por linhagem materna de Henrique Pereira de Lucena, o Barão de Lucena, (vide notas p. 04) seu tio-avô e que desempenhou papel de destaque no assentamento da pedra fundamental para a edificação do asilo da Tamarineira em Pernambuco. José Lucena fez os primeiros estudos no próprio engenho Paróis, o curso secundário e o pré-médico foram feitos no Recife. Iniciou o curso médico em Salvador, de onde se transferiu para o Rio de Janeiro, para a Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil, tendo-se formado em 1929, aos 20 anos de idade (como Ulysses Pernambucano). Data desta época o encontro do ainda estudante (interno) José Lucena com o então médico residente José Leme Lopes (que seria depois Professor Titular e Emérito de Clínica Psiquiátrica da Universidade Federal do Rio de Janeiro). O professor Leme Lopes escreveu a respeito deste primeiro contato, (in: 67) ocorrido em 1927, num almoço na Casa de Saúde Dr. Eiras, no Rio de Janeiro, quando avistou um jovem estudante que, embora almoçando, permanecia com um volume às mãos,

“Curioso e também amigo de livros, consegui ler o título do volume, que tanto interesse despertava ao nosso comensal. Não identifiquei o autor. O romance se chamava ‘À l’ombre des jeunes filles em fleur’ (À sombra das raparigas/moças em flor). Lucena, era ele o novo interno, conduzia-me assim ao caminho de chez Swann. Disso até hoje lhe sou grato.”

Em 1931 ingressou José Lucena na Assistência a Psicopatas de PE, com a defesa da tese ‘A paralisia geral em PE’. Passava então a conviver de modo mais amiudado, como colaborador, com Ulysses Pernambucano, tendo exercido alguns cargos de direção na nascedoura Assistência a Psicopatas de Pernambuco. Sobre este período, vejamos relato de um seu contemporâneo e amigo, o psiquiatra e professor (UFPE) Arnaldo Di Lascio, (in: 67) “Sua atuação na reforma fundamental empreendida por Ulysses Pernambucano humanizando e dando cunho médico-científico à assistência psiquiátrica em Pernambuco – ... marca o verdadeiro nascimento da psiquiatria em nosso meio – .”

Em 1933 concorreu à Livre-docência de Fisiologia e em 1938 à Livre-docência de Psiquiatria, com a importante tese sobre ‘As formas de início da esquizofrenia’ (segundo relato de alunos, o professor costumava dizer que havia muitas portas de entrada na esquizofrenia e poucas de saída). No início dos anos 40 concorreu à Cátedra de Fisiologia da Faculdade de Medicina do Recife (havia tido um ‘namoro’ com a Fisiologia antes do interesse pela Psiquiatria, o que, aliás, também havia ocorrido com o professor Ulysses Pernambucano), concurso no qual enfrentou o já renomado professor Nelson Chaves, genro do diretor da Faculdade, professor Oscar Coutinho, tendo sido aprovado e classificado em segundo lugar. Para ilustrar seu afinco nas atividades de ensino ao longo da vida, busquemos depoimento de seus colaboradores (67, prefácio)

“O setor de atividade, porém, em que teve atuação mais destacada foi sem dúvida o do ensino, para o qual revelou desde cedo vocação autêntica e irresistível. Sua carreira docente começou pouco depois de formado, quando se tornou assistente do professor Ulysses Pernambucano na Cátedra de Fisiologia Nervosa da então Faculdade de Medicina de Pernambuco. Antes de completar dez anos como médico já se submetera a dois concursos de Livre-Docência: um para a referida cadeira e outro para a de Clínica Psiquiátrica. A partir de 1942, quando se classificou em segundo lugar no concurso para Catedrático de Fisiologia, restringiu toda a sua atividade científica e docente ao campo da Psiquiatria. De 1939 até 1949 regeu todos os anos cursos equiparados da Clínica Psiquiátrica. Em 1950, assumiu a cadeira em caráter interino e dois anos depois tornou-se efetivo, com a aprovação em primeiro lugar no Concurso para professor Catedrático. Ainda em 1950, participou da fundação da Faculdade de Ciências Médicas, hoje integrante da Universidade de Pernambuco.”

Em 1950 foi aos EUA, participou de cursos de pós-graduação em Psiquiatria Social e Especial e de aulas sobre diagnóstico de personalidade (Boston). Freqüentou também um curso de terapêutica psicobiológica (orientado por Muncie, seguidor de Adolf Mayer). Em Pernambuco, criou a primeira unidade psiquiátrica em hospital geral ao norte da Bahia, funcionando no Hospital Pedro II e, em seguida, no Hospital das Clínicas (da UFPE). Em 1952, tornou-se professor catedrático de Psiquiatria da Universidade do Recife, defendendo a tese ‘Modificações psicológicas observadas no decorrer do choque hipoglicêmico de Sakel’, em concurso bastante disputado, do qual também participou o professor José Otávio de Freitas Jr. Em 1954 e 1955 foi à França, realizou pesquisa epidemiológica, conheceu os serviços do professor Jean Delay (voltaria para lá em 1960, quando também atuaria no Centro Psiquiátrico de Saint Anne, dirigido por Daumezon).Em seguida, visitou as clínicas psiquiátricas alemãs em Bonn, Heildelberg, München, Tubingen, Wurzburg, Göttingen.

Em 1974, no curso de sua presidência à frente da Associação Brasileira de Psiquiatria, organizou no Recife o Simpósio ‘Esquizofrenia Hoje’. Vejamos seu próprio depoimento a respeito, na nota de abertura do evento, (87) .

“A Associação Brasileira de Psiquiatria inicia neste momento o Simpósio ‘Esquizofrenia Hoje’. Propósitos de afirmar sua presença integradora nas diferentes áreas do país, de recolher, na fonte, as expressões do pensamento psiquiátrico nacional e de permitir intercâmbio crescente das correntes de idéias que dividem, às vezes, mas às vezes aproximam médicos voltados para os enigmas da patologia mental, convidou um grupo significativo de figuras representativas de nossa especialidade para debater, mais uma vez, o que é possivelmente o problema central da psiquiatria, o problema da psicose por excelência, a questão da esquizofrenia, tal como se apresenta nos dias atuais.”

Compareceram a este Simpósio eminentes figuras do meio psiquiátrico, tais como Álvaro Rubim de Pinho, Eustachio Portela Nunes, Ulysses Vianna Filho, José Leme Lopes, Luiz Cerqueira, Oswald Moraes Andrade, José Caruso Madalena, entre outros.

Anos depois, em 1978, ano em que se daria sua jubilação da Cátedra de Psiquiatria da UFPE, foi a vez do professor José Lucena ser homenageado, em evento organizado pela ABP em Recife, ocorrido em março e a que se deu o título de ‘Raízes e Tendências da Psiquiatria no Brasil’, ao qual compareceram, para discutir o tema e louvar o psiquiatra pernambucano, entre tantos outros, os psiquiatras José Leme Lopes, Ulysses Vianna Filho, Wandick Ponte, Salvador Miranda, Luiz Cerqueira, Heronides Coelho Filho.

Durante os últimos anos de vida, esteve o professor Lucena envolvido com problemas crônicos de saúde, tendo-os enfrentado de modo condizente com sua personalidade, “como um estóico” (disse o professor Othon Bastos). Faleceu no Recife em 03 de setembro de 1997. Ao longo da vida, residiu em Recife, Salvador, Rio de Janeiro, Boston, Paris e Heildelberg (cerca de 30 viagens).

Resumem-se abaixo os principais cargos, postos e atribuições exercidos.

 Professor Catedrático de Clínica Psiquiátrica da antiga Universidade do Recife (atual UFPE) (Imagem 35)

 Professor Fundador e Catedrático de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco (hoje UPE) (Imagem 36)

 Professor Emérito da UPE (Imagem 37)

 Ex-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), 1973- 1975

 Ex-presidente da Sociedade de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Brasil

 Na antiga Divisão da Assistência a Psicopatas do Estado de Pernambuco: Diretor do Serviço Aberto, Diretor do Manicômio Judiciário e Diretor Geral

 1º presidente do Departamento de Psiquiatria da Sociedade de Medicina de Pernambuco
(embrião da futura Sociedade Pernambucana de Psiquiatria)

 Membro da Academia Pernambucana de Medicina (Imagem 38)

 Perito em Dependências a drogas da Organização Mundial da Saúde (Imagem 39)

 Membro da Academia Brasileira de Ciências Médico - Sociais (Imagem 40)

 Detentor das Medalhas de São Lucas e Maciel Monteiro, prêmio da Sociedade Pernambucana de Medicina

 Psiquiatra de língua francesa, relator de diferentes temas em vários congressos mundiais de Psiquiatria


2. O professor Lucena visto pelos alunos e colaboradores

Foi, o professor José Lucena, homem admirado por seus alunos e colaboradores. Na preparação deste trabalho tive a oportunidade de entrevistar alguns de seus colegas e discípulos, que privaram de seu convívio mais próximo, escolhendo, entre estes, decerto com um critério algo pessoal, aqueles que seguiram carreira docente. De forma consensual, tinham-no como um possuidor de notória cultura psiquiátrica. O psiquiatra e professor (UFPE) Tácito Medeiros ressaltou no professor Lucena a erudição, como já fizera em escrito o psiquiatra Luiz Salvador Miranda Sá - Jr, quando afirmou, (Sá – Jr., in: 1)

“... lia atentamente (José Lucena) e com avidez em espanhol, inglês, francês, italiano, e alemão. Tinha uma biblioteca invejável pelo ecletismo e refinamento científico e literário.”

O professor Othon Bastos lembrou uma brincadeira que os alunos de Lucena (incluindo o próprio relator da história) lhe faziam e sob a qual nunca tiveram êxito ao longo de vários anos. Consistia em, abordado determinado assunto psiquiátrico nos seminários ou reuniões clínicas, perguntar se era do conhecimento do professor Lucena um livro recém-publicado ou mesmo algum que acreditavam ser inusual ou pouco estudado, como que a ‘testar’ o velho professor. Este, ao longo de anos, nunca ‘desconheceu’ qualquer das referências e, na maioria das vezes, detinha-se em análises aprofundadas acerca de capítulos específicos, (nas palavras de Salvador Miranda) “... com preciosidades como o número da página e a posição do parágrafo nela.” (Sá – Jr., in: 1); qualidades e defeitos da obra, como que a destruir os planos ‘maledicentes’ dos alunos. O psiquiatra e professor (UFPE) Osmar Gouveia ressaltou-lhe o conhecimento sobre psicopatologia e a proximidade com a ‘escola alemã de Psiquiatria’. A psiquiatra e professora (UFPE) Maria Cristina Cavalcanti de Albuquerque o via como um grande cientista, fenomenologista, observador, também lhe aproximando da escola alemã.

Dentre os alunos, discípulos ou colaboradores, são muitos os que lhe ressaltaram características pessoais que se refletiam em comportamento e conduta como professor. Foram referidos o rigor (Dra. Maria Cristina Cavalcanti*), a meticulosidade e a organização (Dr. Osmar Gouveia*), - refletindo mesmo certos traços obsessivos, além da notória timidez. Ilustremos o dito acima com dois exemplos de pessoas que conviveram muito proximamente com o professor Lucena, os psiquiatras e professores (da UFPE) Arnaldo Di Lascio e José Carlos Cavalcanti Borges. Vejamos depoimento do primeiro, ao comentar sobre o colega Lucena, (in: 67) “... (de) personalidade organizada, obsessivamente organizada no desempenho de suas obrigações, extraordinariamente produtiva, por demais escrupulosa em suas responsabilidades,...”

Transcrevo diálogo ocorrido entre os psiquiatras José Carlos Cavalcanti Borges (o Zé, no dizer do amigo Lucena) e José Cavalcanti Lucena da Mota Silveira (o Mota, no dizer do colega Cavalcanti Borges), em que o primeiro, que além de psiquiatra foi teatrólogo e ator, conclamava o colega Lucena, após assistir uma aula sua, a nelas inserir uma pitada de fazer artístico, a despeito do reconhecido conteúdo teórico e originalidade já presentes, (in: 67)

(O professor Lucena inicia o diálogo)
“Então, seu Zé?
- Bem, muito bem. Muito bem, mas...
- Mas o que?
- Mas carece de sangue na guelra do falante. Falta uma cota de vibração, uma certa musicalidade! Ritmo no tocar o seu instrumento de dizer, precisa. Isso, Mota. Precisa uma dose de histrionismo. Você sabe que o professor lucra em ser seu tanto ator teatral; mormente em atos solenes!
- Não posso agir de outra maneira.
- Mas promete que vai tentar, mais tarde, na hora?
- Não prometo. Não posso cumprir. É uma violência contra mim que não posso praticar.”

Certamente mais por questões ligadas à personalidade do que pelo inquestionável saber psiquiátrico, seus alunos são de opinião corrente que as aulas teóricas do professor Lucena estavam aquém de seu conhecimento sobre o assunto, pelo caráter um tanto monótono que assumiam.

No trato com os doentes, disse seu ex-aluno, Dr. José Francisco de Albuquerque, psiquiatra e professor (da UFPE), “... humildade, compromisso com o paciente e uma abordagem ampla e humanística”, no que corroborou o professor Osmar Gouveia*, “... (trabalhava) indo a fundo e se detendo nas minúcias de cada caso. Mesmo depois de estabelecido o diagnóstico, continuava-se a entrevista.”. Sobre o mesmo tema, de novo seu amigo e contemporâneo Cavalcanti Borges, (in: 67)

“Madrugava, queria ver com folga os pacientes recém-entrados. Indagava, inquiria, verrumava antecedentes de qualquer espécie; metia-se no passado, no presente e no futuro do doente novo. Apalpava, percutia, auscultava, realizava sistemático exame neurológico, beneditino em guerra pacífica contra as circunstâncias quase sempre adversas - ...”.

Muitos dos alunos relembraram passagens de cunho pessoal, em que deixaram transparecer a afeição pelo professor Lucena. Dr. Osmar Gouveia* contou tê-lo conhecido no 3º ano de medicina e, a partir de então, ter passado a aprofundar seu interesse pela psiquiatria; tinha por José Lucena grande admiração (que era, segundo alunos, recíproca) e era por ele orientado em trabalhos científicos. Dra. Maria Cristina Cavalcanti* lembrou que, como ocorria com Ulysses Pernambucano (a quem José Lucena chamava ‘Ulysses, o Grande’, também o professor Lucena sabia, no que toca ao aluno, “... identificar as potencialidades.”.

Autor de obra psiquiátrica extensa e variada (que será abordada em capítulo próprio), foi, a um só tempo, homem de ciência,

“... de probidade e seriedade científicas, de pertinácia e espartana disciplina profissional, que lhe permitiram cumprir à risca o próprio dever com zelo inigualável e simultaneamente manter-se sempre na vanguarda dos conhecimentos psiquiátricos, constantemente atualizado e a par de todas as novidades científicas” (73)

e “profundo conhecedor da natureza humana (dos pacientes e dos alunos)”,
nas palavras de Maria Cristina Cavalcanti*.
Aglutinou seguidores, em função de sua dedicação para o ensino com os mais novos e as atividades como preceptor da residência médica. Foi o professor José Lucena, no dizer de um dos que com ele conviveram como aluno, (Sá – Jr., in: 1)

“Mestre por vocação irresistível, autêntico chefe e criador de Escola, haja vista ter sabido aglutinar ao seu redor durante quase meio século e, particularmente, nestes últimos... anos em que esteve à frente da Clínica Psiquiátrica do Hospital Pedro II, uma vasta legião de alunos e discípulos, hoje espalhados praticamente por todo o país. E com que habilidade e isenção de preconceitos de ordem política, social, religiosa ou cultural, soube escolher seus colaboradores.”



* Depoimentos pessoais/ entrevistas ao autor.

3. Nova ‘visão panorâmica da produção científica de José Lucena’ *


‘Se se pudesse resumir, se se pudesse dizer em uma simples palavra o grande valor, o grande mérito da obra do professor José Lucena é ter dado continuidade e dado estrutura à escola psiquiátrica pernambucana.’

Ulysses Vianna Filho


* referência ao relato ‘Visão panorâmica da produção científica de José Lucena’, feito pelo professor Galdino Loreto na 1ª Jornada Pernambucana de Psiquiatria, em 03/12/1981 e posteriormente publicado em Neurobiologia (77)

O psiquiatra e professor (UFPE) Galdino Loreto teve a oportunidade de, em duas ocasiões, analisar a produção científica do seu colega e antecessor, o professor José Lucena. A primeira, quando pôde saudá-lo na solenidade em que este recebeu o título de Professor Emérito da Universidade Federal de Pernambuco e a segunda quando atendeu a convite do presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, proferindo palestra em 03.12.1981, na 1ª Jornada Pernambucana de Psiquiatria, ocasião em que, respondendo aos reclamos, resolveu, em suas próprias palavras, “tornar mais conhecidas entre os jovens psiquiatras as investigações e as idéias de um estudioso da Psiquiatria.” (77) O professor Galdino Loreto recolheu as publicações do professor José Lucena, e, a partir de método próprio por ele explicitado, (77) um “critério misto”, em parte relevando o “tema estudado”, em outra parte, “a natureza dos recursos empregados”, propôs um agrupamento em função das semelhanças encontradas.

É a tarefa parecida que se propõe o autor destas linhas. Como força impelidora, notam-se pelo menos três razões que o impulsionaram para tal empreitada, quais sejam: o surgimento de novas publicações de José Lucena após as revisões feitas por Galdino Loreto [mesmo após 1981 frutificaram algumas produções do professor Lucena, sendo que algumas de marcada importância, p. ex. seu derradeiro trabalho de uma série sobre as dependências químicas, (99)]; em segundo lugar, a distância de quase trinta anos da avaliação realizada, um razoável tempo histórico, ainda mais se levarmos em consideração a velocidade atual dos avanços científicos, a nos propor novas ordenações e novos modos de percepção de temas já consagrados; cabendo, portanto, uma atualização sobre o trabalho realizado e, por último, principalmente a fim de atender a um dos propósitos específicos deste trabalho, o de, ao avaliar e classificar a produção escrita do professor José Lucena, investigar os vínculos e relações (assim como as proximidades e divergências) com as características da Escola de Psiquiatria do Recife. Ressalte-se aqui, que, em virtude da qualidade dos textos do professor Galdino Loreto, não há como empreender qualquer tarefa neste sentido que não parta da análise de seus trabalhos. O que se pretende, com efeito, é propor discretas contribuições a um novo ordenamento, introduzindo pequenas alterações e alguns acréscimos. Registre-se também que não se trata, de maneira concordante com o teor dos estudos do professor Galdino Loreto, de fazer considerações quaisquer sobre os conteúdos dos temas abordados por José Lucena. A esta empresa já se engajou, com maior capacidade e talento, o próprio professor Lucena. Intenciona-se muito mais a uma descrição, não sem certo teor contemplativo visando a uma classificação, das análises por ele empreendidas.

Faça-se uma nota introdutória sobre a amplitude dos textos escritos pelo professor Lucena. Quaisquer de seus trabalhos, independentemente do desenho de estudo proposto, podem ser encarados como de revisão histórica, tal a multiplicidade de referências e citações neles presentes, demonstrando o psiquiatra um largo conhecimento acerca dos temas estudados e das obras citadas, percebido ainda no tom peculiar com que a elas se dirigia. Anedoticamente exemplifico. Em um dos textos em que abordou a questão da maconha, (93) para substanciar uma afirmação sua, invocou (para lhe confirmar a observação) 19 autores que haviam realizado afirmações na mesma linha. Cito outro exemplo. Cultor da neuropsiquiatria, não deixando de lado a ‘porção médica’ do trabalho psiquiátrico, realizava, em seus pacientes, minuciosos exames físicos/ neurológicos, um dos quais aqui reproduzo, (93) chamando atenção para a riqueza de detalhes na descrição,
“Ao exame: indivíduo de estatura mediana, leptossomático (à inspeção). Conjuntivas oculares congestas. Círculos percorneanos. Gânglios de Ricord palpáveis. Não apresenta esternalgia nem tibialgia. Nada de anormal nos aparelhos respiratório e digestivo. Ictus cordis no 5º espaço, linha mamilar, forte, difuso. Bulhas claras, taquicardia. Pressão arterial: Mx. 10 Mn. 6,5. Marcha normal. Todas as posições são possíveis. Romberg ausente. Não se verificam anormalidades dos reflexos tendinosos e cutâneos. Pupilas de diâmetro igual e normal, reagindo bem à luz e acomodando prontamente. Durante a exposição à luz, as pupilas se dilatam e se contraem ritmicamente.”

Era também versado em apreciações menos ortodoxas ao campo da Medicina, em que sobressaía o analista da sociedade, como comprova excerto de escrito seu que transcrevo, (65) em trecho no qual procurava delinear o panorama em que iniciava a vida profissional o médico Ulysses Pernambucano,

“A época em que se desenrolou sua atuação como médico, em 1912, até sua morte, em 1943, correspondeu a um período de transformações, (que gradualmente se aceleraram) da sociedade e da cultura do Brasil. Foi um período em que nosso país sobretudo depois da 1ª Guerra Mundial, começou literalmente, a cair em si. Época de inquietação reformista e, por vezes, revolucionária, marcada pela inquietação político-social, manifestada nos dois 5 de julho, na Revolução de 30, de cujas aspirações libertárias conflitantes resultaria contraditoriamente o chamado Estado Novo, no aparecimento de núcleos partidários da extrema direita e da extrema esquerda, devotos de violência. Marcada, também, no domínio das idéias, pelo movimento modernista de 1922 e o manifesto regionalista de 1926, renovadores das letras e das artes, pelas correntes da Escola Nova, modificadores de estrutura do ensino, pelo empenho de conhecer e diagnosticar melhor nossa realidade social, conduzindo ao surgimento, no início da década de 1930, ao marco que é Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. Foi, ainda, a época da aceleração do crescimento urbano, do advento de novas técnicas de produção, do início de nossa progressiva industrialização e da crescente significação do proletariado urbano. Gradualmente e com excessiva lentidão, emergiu uma hesitante legislação previdenciária. Passamos a distanciar-nos da imagem do país essencialmente agrícola dos tempos de Wenceslau, mas quase sempre sob os signos da assimetria, incoordenação, desnível regional e arritmia persistente.”

Faz-se necessário ainda um comentário acerca de certa ousadia pessoal ‘cometida’ pelo professor José Lucena, ladeado por alguns de seus mais íntimos colaboradores. Trata-se do uso experimental de cannabis, realizado para ‘fins científicos’, segundo relato do próprio autor. Nesta ocasião, cada um dos participantes, a seu turno, fez uso da substância aludida e pôs-se a ser observado pelos demais, que questionavam e tomavam notas. Lembre-se que, apesar de ousada, não era tal experiência original, tendo já sido empreendida por outros autores, como nos lembrou o próprio professor Lucena. Nas suas palavras, (91)

“No intuito de verificarmos com maior segurança as modificações frequentemente referidas com grande imprecisão por nossos observados... decidimos, juntamente com os nossos companheiros de serviço, acadêmicos Arnaldo Di Lascio, René Ribeiro, João Vieira de Menezes, realizar a experiência de fumar a planta com as devidas precauções. Cada um de nós teve ocasião de o fazer em dia diferente, deixando-se então observar pelos outros.”

Deixo uma contribuição pessoal, antes de partir para o exame mais detido acerca de sua produção. Nos estudos para a realização deste trabalho, pude manusear alguns textos originais do próprio José Lucena, e, em alguns deles, perceber observações pessoais e correções (grafadas de lápis a posteriori), denotando um esforço contínuo por melhoramento nos artigos, mesmo naqueles já publicados.

Baseado no ‘critério misto’ já explicitado, dividiu o professor Galdino Loreto a obra de José Lucena em cinco grandes grupos, a saber:

1. Trabalhos predominantemente clínicos
2. Pesquisas em que foram empregados testes psicológicos
3. Trabalhos sobre Psiquiatria Social e Epidemiologia Psiquiátrica
4. Ensaios sobre aspectos históricos da Psiquiatria Brasileira e sobre temas psicológicos
5. Trabalhos de elaboração teórica ou de reflexão crítica

O professor Galdino Loreto incluiu no 1º grupo uma gama de publicações; duas delas citadas como laudos periciais, (78, 79) uma que abordava reações psicóticas em reservistas, (80) ensaios clínicos com a clorpromazina e a reserpina, (81, 82, 83, 84) uma pesquisa sobre idade da menarca e doença mental, (85) ainda dois trabalhos que versavam sobre a esquizofrenia (86, 88) e dois sobre psicoses induzidas, (89, 90) concluindo com uma série de estudos sobre o ‘maconhismo’ (91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99). Comentou com mais detalhes alguns deles, que considerou os mais relevantes deste grupo.

No 2º grupo, mais uniforme, aglutinou aqueles que tratavam da aplicação de testes psicológicos, quais sejam: Rorschach, (100, 101, 102, 103, 104) Szondi, (105) Bender-Gestalt, (106) Cornell-Index e Raven, (107) Sargent, (108) aplicados na averiguação de vários aspectos dos pacientes. Examinou mais detidamente aquele trabalho que se constituiu Tese da Cátedra de Psiquiatria (100) do professor Lucena.

Englobou no 3º grupo, lado a lado, os estudos que examinavam as questões de Psiquiatria Social e de Epidemiologia Psiquiátrica (109, 110, 111, 112, 113, 114), detendo-se naquelas obras que lhe chamaram mais atenção.

No 4º grupo reuniu tanto aqueles mais voltados para a história da psiquiatria brasileira (65, 115, 116, 117, 118) quanto outros que tratavam de temas psicológicos. (119, 120).

Por fim, descreveu o professor Galdino Loreto um 5º grupo, de escritos de elaboração teórica e reflexão crítica, (65, 66, 121, 122) realizados pelo professor Lucena.

Partindo da análise dos trabalhos publicados pelo professor José Lucena (tanto os já revisados pelo professor Galdino Loreto quanto os produzidos em seguida, bem como aqueles mais remotos, escritos nos primeiros anos de prática profissional), pretende este autor propor uma nova síntese, que é, em alguns pontos, muito próxima e, em outros, um tanto diferente da obra de avaliação de Galdino Loreto.

Eis a nova divisão proposta:
1. Psiquiatria Clínica
2. Descrição de (ou Avaliação por) Testes Psicológicos
3. Epidemiologia em Psiquiatria
4. Psiquiatria Social, História da Psiquiatria e Serviços Assistenciais Psiquiátricos
5. Temas psicológicos
6. Elaboração teórica, análise crítica, exame do fato psiquiátrico

No que toca aos trabalhos de Psiquiatria Clínica (1º grupo), propõe-se uma subdivisão, com acréscimo de algumas categorias:

a. esquizofrenias e psicoses reativas/ induzidas (80, 86, 88, 89, 90)
b. psiquiatria forense (78, 79, 89)
c. psiquiatria transcultural e transhistórica (88, 89)
d. psicogeriatria (79, 118, 120, 123)
e. maconhismo ( 91, 92, 93, 94, 95, 96, 97, 98, 99)
f. análise de casos clínicos (78, 79)
g. psicofarmacologia (81, 82, 83, 84)

Da lista anterior depreende-se que algumas obras compõem mais de uma categoria, em função de versarem, sob a nossa análise, sobre mais de um tema. Ressalte-se ainda que abordagens psicopatológicas, etiológicas e nosográficas perpassam por vários dos trabalhos citados embora não sejam o mote principal ou o objetivo imediato das publicações. Seguem comentários acerca dos textos de maior interesse componentes deste grupo.

Há duas obras (78, 79) em que o professor Lucena chegou a conclusões forenses, mas somente após detida análise clínica, como seria de se supor. Na primeira delas, ‘Evolução regressiva de perturbações mentaes na idade involutiva’, (78) foi considerada a impressão final sobre um caso que José Lucena tinha observado e para o qual havia sido instado a compor um laudo forense. Análise clínica permeou todo o relato. Discutiram-se questões como a distinção entre a ‘velhice fisiológica’ e a demência ‘vera’, ou ainda as perturbações mentais da senilidade e as (ocorridas) na senilidade, sendo que no caso em questão, fundamentando o laudo final estava a observação de que uma evolução favorável com o decorrer do tempo falava contra uma demência senil e a favor de um quadro de confusão mental. Na segunda, ‘Reação delituosa decurso de paralisia pseudo-bulbar’, (79) foi feito o relato clínico de um caso sobre o qual havia tido José Lucena a oportunidade de se pronunciar no foro. Disse o professor que embora fosse “... a delimitação da paralisia pseudobulbar primitivamente um conceito neurológico”, a observação “tem revelado na referida afecção um certo número de alterações psíquicas comuns”; delimitando-as no decorrer do texto, principalmente mas não exclusivamente interessando a esfera afetiva: riso e choro espasmódicos, hiperemotividade, irritabilidade, incontinência emocional assim como distúrbios na esfera intelectual, p.ex. déficit de atenção e de memória.

Abordando a esquizofrenia ou psicoses correlatas, José Lucena deixou transparecer preocupações relativas à assim chamada Psiquiatria Transcultural/ Transhistórica. (88, 89) Em contribuição a evento realizado para debater a esquizofrenia, ‘Simpósio Esquizofrenia Hoje’ (Recife, 1974) – época em que estava à frente da presidência da Associação Brasileira de Psiquiatria, abordou tal enfermidade em artigo intitulado ‘Esquizofrenia e sociedade contemporânea – Conceito e mudanças sintomatológicas’. (88) Neste, dissertou acerca da natureza da esquizofrenia, comentou a mudança sintomatológica dos quadros da época, que, segundo seu aval, teria relação com: progressos conceptuais, mudanças de períodos históricos, mudanças culturais, transformações do cuidado e tratamento dos pacientes. Tratou sobre a obra de (Eugen) Bleuler e do quanto teria sido influenciada pelas contribuições de Freud (‘spaltung’/ cisão/ distúrbios associativos). Observou o alargamento das perspectivas de abordagem com a psicologia compreensiva Jaspersiana, o diagnóstico pluridimensional, a análise estrutural de Birnbaum. Comentou sobre o curso e a etiopatogenia da esquizofrenia. Fez ver que se notaram algumas modificações na assistência psiquiátrica após as contribuições de Bleuler, tais como: incentivo à alta precoce e à participação familiar, incremento do cuidado ambulatorial, sistematização da terapia pela ocupação. Notou-se, segundo a análise, uma redução, ainda que parcial, de sintomas regressivos com a instituição de tratamentos socioterápicos e dinâmicos. Refletiu sobre o institucionalismo (tema de seu interesse) e a antipsiquiatria (com críticas à atitude passional). Referiu algumas mudanças transhistóricas e transculturais acerca da doença esquizofrênica, p.ex. sobre a freqüência dos subtipos sindrômicos; em que estaria havendo aumento das formas paranóides, diminuição das catatônicas e manutenção das hebefrênicas. Terminou relevando a contribuição psicofarmacológica e introduzindo a questão de uma nova entidade/ doença: a esquizoafetiva ou ciclo-esquizofrênica.

Também sobre esquizofrenia/ psicoses versou a tese de livre-docência em Psiquiatria do professor José Lucena, defendida em 1938, intitulada ‘Contribuição ao estudo de algumas manifestações iniciais das esquizofrenias’. (86) Vejamos como o professor pernambucano introduziu o assunto, com destaque para suas implicações,

“A sintomatologia inicial das esquizofrenias sempre foi apontada como imprecisa e de difícil caracterização. A experiência demonstrou aos psiquiatras como quadros sintomáticos de aparência banal e pouco perigosa eram capazes de assumir um aspecto tipicamente maligno e evoluir no fim de um tempo variável, para estados terminais com todos os indícios de deterioração. O reconhecimento precoce desses estados de esquizofrenia implicaria sem dúvida enormes benefícios do ponto de vista clínico, terapêutico e social. Infelizmente é pouco provável – e isso durante um tempo ainda bastante dilatado – que se possa dar resposta definitiva às dúvidas e interrogações que o contato com certos pacientes em fase inicial suscita no espírito do especialista.”

O professor Lucena situou ainda os possíveis alcances e limitações do trabalho por ele desenvolvido,

“O presente trabalho não tem por objetivo estabelecer quais os sinais indiscutíveis, característicos ou patognomônicos do processo esquizofrênico e sim apontar os sintomas ou manifestações iniciais do processo sem a preocupação de estabelecer entre eles relações de subordinação ou hierarquia. Tais sintomas ou manifestações iniciais são de importância desigual. A análise estrutural revela estarem alguns ligados ao próprio processo esquizofrênico e representando sua exteriorização e sendo outros simples formas de reação da personalidade invadida e a caminho da desintegração.”

José Lucena analisou, de acordo com sua proposta, três grupos, a saber: aquele em que os sintomas foram referidos pela família do paciente e as manifestações eram características de esquizofrenia; outro em que, também com relato dos familiares, as manifestações lembravam, à primeira vista, outra entidade mórbida que não a esquizofrenia e um terceiro grupo em que a anamnese foi fornecida pelos próprios enfermos. Segundo o professor Lucena,

“Uma vez agrupadas as observações de que dispomos segundo a história da doença haja sido fornecida pela família ou pelo próprio enfermo, importa procurar saber quais os sintomas que aparecem em cada um dos grupos considerados.”

Concluiu pela ausência de um sintoma único definidor e pela existência de agrupamentos de sintomas nas manifestações iniciais. Em relação aos quadros que poderiam suscitar confusões diagnósticas com a esquizofrenia, estes seriam “estados psiconeuróticos, as personalidades psicopáticas, a loucura maníaco-depressiva, os quadros parafrênicos e paranóicos.”

Em outro artigo, ‘Uma pequena epidemia mental em Pernambuco’, (89) José Lucena resvalou, entre outros assuntos, para a abordagem e o exame de questões relativas à psicologia das massas/ multidões. O professor teve a oportunidade de examinar 8 participantes de episódio ocorrido em Panelas - PE em maio de 1936, no qual um morador local, João Cícero, após ter se sentido tomado pelo espírito de um padre, o padre Cícero Romão Batista, logo em seguida à passagem de um avião por aquelas terras (fato inédito), liderou um movimento que, partindo de um matiz religioso, terminou por culminar em atos agressivos contra moradores (incluindo o assassinato do diretor de polícia local), com toda a carga de repercussões sociais inerentes. Houve confronto com a polícia, no qual ocorreram mortes tanto do ‘bando’ comandado por João Cícero quanto dos policiais. Após este episódio, João Cícero, líder do movimento, nunca mais foi visto. José Lucena, em seu relato, narrou os acontecimentos, descreveu o resultado da aplicação de testes psicológicos nos ‘pacientes’ que teve oportunidade de examinar (liderados de João Cícero) e fez extensa revisão bibliográfica sobre o tema de psicologia das massas. Introduziu a questão das perturbações mentais ocorrendo em vários indivíduos ao mesmo tempo, p.ex. a loucura imposta, a loucura simultânea, a loucura comunicada, que seriam abordadas de forma mais minuciosa em escrito posterior. (90) Buscou a interseção entre os fatos psicopatológico e sociológico. Realizou uma profunda interpretação sobre o comportamento das multidões. Concluiu pela existência de doença mental (psicose de difícil especificação por falta de elementos, sobretudo da história prévia) apenas no ‘meneur’ (líder) e possivelmente em um dos demais participantes (pai do líder), estando os outros na fronteira entre uma oligofrenia e uma rudeza intelectual contingente. Comentou que em multidões desorganizadas,

“Exaltação ou intensificação da emotividade dos componentes de uma massa é uma de suas características principais. Em nenhuma outra condição ela adquire tamanha força. Os indivíduos se entregam sem freio às paixões...”.

Ao final, invocando uma abordagem múltipla, vaticinou,

“Tais problemas, é certo, muito lucrariam em ser considerados do ponto de vista das diferentes ciências do homem. As diversidades de perspectiva permitem que cada um se beneficie da contribuição de ramos de conhecimentos diferentes.”

Aprofundando a apreciação do tema das psicoses reativas, induzidas ou de associação; escreveu José Lucena (em 1946) o estudo ‘Psicoses múltiplas predominantemente reativas e psicoses múltiplas predominantemente endógenas’; (90) a fim de examinar tema que lhe era caro. Trata-se de exame teórico de revisão acrescido de relatos clínicos com pacientes a quem assistiu como médico. Interessou-se, sobretudo, em examinar, no seu próprio dizer, “... a possibilidade dos distúrbios mentais em um paciente representarem o papel de causa eficiente no aparecimento de perturbações mentais em membros do entourage.” Esmiuçou as descrições clínicas das chamadas loucura comunicada ou imposta (feitas por Berlyn, Lasegue, Falret e Montyel) assim como a loucura simultânea de Regis e a justaposta.

Em outro artigo seu, publicado em 1947, ‘Algumas reações psicóticas registradas em reservistas incorporados ao exército’, (80) flertou com aspectos etiológicos dos transtornos mentais, o que se verificava em muitos de seus trabalhos. Analisou as observações realizadas entre mobilizados na 7ª região militar (do exército), entre 1942 e 1945; comentou sobre aqueles pacientes que tiveram o diagnóstico de psicose reativa (tenha sido exteriorizada como crise onírica ou com delírios de grande polimorfismo), expondo sua importância. Constatou que, (80)

“... a simples incorporação às forças armadas por ocasião da mobilização acarreta para algumas personalidades predispostas o aparecimento de distúrbios mentais de gravidade variável, mas que podem algumas vezes constituir verdadeiros episódios psicóticos.”,

embora ressaltasse que, “... tais reações psicóticas de personalidades predispostas sejam certamente muito menos acentuadas e freqüentes que as chamadas neuroses e psicoses de guerra...”.

Há um conjunto de estudos ‘pioneiros’ tratando da incipiente psicofarmacoterapia (81, 82, 83, 84). Trata-se de quatro trabalhos: dois escritos em português e dois em francês, que versaram sobre o uso de dois agentes neurolépticos, a clorpromazina (amplictil) e a reserpina (serpazol). Após, como de costume, ter iniciado fazendo ampla abordagem em que ressaltava a origem histórica das medicações e de sua utilização, partiu para comentar a difusão do uso das mesmas após 1952 (com os trabalhos de Jean Delay e Pierre Deniker). Utilizando-se do linguajar e do conhecimento científico da época, enumerou as ‘variadas’ indicações psiquiátricas do tratamento neuroléptico (com a clorpromazina e a reserpina): estados maníacos, síndromes maniatiformes, psicoses sintomáticas, reações alcoólicas subagudas, psicoses involucionais, estados de agitação em epilépticos e orgânicos. Refletindo um evidente ‘otimismo terapêutico’, compreensível em função da nova possibilidade que se abria com a psicofarmacologia, relatou certas indicações particulares em relação aos dois agentes. Nas depressões endógenas ‘encurtariam’ a duração do tratamento. Em psiconeuróticos teriam indicação de uso não só em estados de ansiedade e reações histéricas, como também, em menor escala, em pacientes obsessivo-compulsivos. Em esquizofrênicos, haveria melhor resposta quando a exteriorização clínica era de quadros oniróides e esquizofrenóides em relação àqueles com núcleo esquizofrênico bem estabelecido. Fez o professor Lucena observação sobre casos de psicose maníaco-depressiva tratados com ‘amplictil’; relatou que dos pacientes que estavam em depressão, a melhora veio após tratamento com amplictil mais ECT. De maneira bastante rigorosa, relacionou achados recentes da literatura com experiência pessoal, advinda de observação clínica. Minuciosas, detalhadas, as melhoras clínicas foram explicitadas em função de sintomas – alvo; enumerou por doença específica quantos indivíduos foram expostos ao tratamento com clorpromazina e reserpina, caracterizando um extremo rigor metodológico.

Foi no exame do ‘maconhismo’ que o professor Lucena escreveu alguns de seus capítulos mais profícuos. Trata-se de várias publicações, contendo abordagens diversificadas, aqui expostas por ordem cronológica. Na primeira delas, publicada em 1934, ‘Os Fumadores de Maconha em Pernambuco’, (91) comentou sobre a origem dos nomes dados à maconha e a correspondência entre eles (p.ex.: quando da penetração da substância no Brasil com negros escravos - fumo da Angola -, na assimilação pelos nativos - fumo de caboclo -. Revelou aspectos epidemiológicos dos usuários da droga; estes seriam predominantemente: homens, menores de 25 anos, de classes pobres, mestiços e negros (o que revelaria aspectos sociais relacionados ao uso); relatou resultados de investigação (com testes) de 08 usuários associado a relato da intoxicação de João Vieira de Menezes (auxiliar) e auto-relato (com exposição de fatos, sentimentos, idéias pessoais) – sob experiência já descrita. Descreveu em pormenores manifestações mentais várias da intoxicação pela maconha. Em outro das publicações, ‘Alguns novos dados sobre Fumadores de Maconha’, (92) fez relato de frases ouvidas de seus pacientes quando em contato destes com a cannabis (uso), escreveu ter se sentido satisfeito por ter tido a oportunidade de junto a um paciente “assistí-lo queimar liamba” (1,5g de maconha), no que aproveitou para descrever alguns achados psicopatológicos (sobretudo o automatismo mental) colhidos no exame dos pacientes, quais sejam, de loquacidade: “quando estou com ela, me toca a palavra logo”, de euforia: “Liamba... sabe o que faz, e quando vai fazer o negócio adivinha se vai ganhar ou perder...”; “Estou dizendo que ela é uma professora”; “quando eu fumei, vi um azulão na vista e parece que tudo que havia ali era música”; assim como de irradiação do pensamento: “O pensamento que eu penso o senhor pensa também... Eu estou fumando e pensando em Fulano, ele pensa a mesma idéia e eu sei disto, porque a primeira vez que eu me encontrar com esta pessoa que eu pensei, ela me diz...”. Em escrito seguinte, enveredou pela relação entre maconhismo e alterações sensoperceptivas, ‘Maconhismo e Alucinações’, (93) ressaltou poder haver com o uso “claramente desordens perceptivas”, que, no entanto, não se encaixavam como alucinatórias; p.ex. as dismorfopsias relatadas por (Arnaldo) Di Lascio e René Ribeiro na citada experiência de uso conjunto da substância por Lucena e seus auxiliares. Em mais um artigo de interesse, ‘Dados psicotécnicos sobre um pequeno grupo de fumadores de maconha’, (94) visou a estudar a personalidade dos fumadores, principalmente à luz das modernas técnicas, utilizando métodos projetivos, entre estes, o perfil psicológico de Rossolino, provas de medida da inteligência global, psicodiagnóstico de Rorschach. Após análise, revelou que embora se tratasse de um grupo heterogêneo, os observados apresentaram,

“tipos de estrutura da personalidade, desharmônicos ou mal integrados, embora não podendo ser encaixados em um tipo único, com déficit dos fatores de introversidade, a afetividade ou conscientemente constrita ou reprimida e empobrecida ou solicitada impulsivamente e sem regulação pelas excitações emocionais, esfera afetiva central em alguns deles facilmente perturbada, em relação possível com complexos subjacentes, capacidades intelectuais algo reduzidas.”

E concluiu que, “com tais defeitos da integração pessoal não surpreende que o uso de tóxicos esteja entre suas perturbações de conduta”. Em relação ao psicodiagnóstico miocinético de Mira, reiterou, (94)

“Em todo o pequeno grupo examinado (prevaleceram) a desarmonia, o defeituoso ajustamento e a falta de integração das tendências pessoais, com evidências de instabilidade, excitabilidade, por vezes incontinência de pulsão. Predominaram os traços depressivos reativos, sendo variável a orientação constitucional do humor... A agressividade atual e potencial foi claramente dirigida contra o mundo exterior, embora em uma minoria atenuada por traços de auto-agressão. A capacidade intelectual dos examinandos evidenciou falhas.”

Em outras produções, (95, 96, 97) chegou a algumas conclusões relevantes. Por exemplo, expôs como poderiam se desenvolver as relações entre uso de cannabis e psicoses, tema, aliás, que tem sido muito investigado na atualidade.

Destas relações poderiam advir,

1. Intoxicação aguda
2. Psicoses tóxicas
a. chegando até psicose, porém com sinais tóxicos característicos.
b. psicoses funcionais, “iniciadas ou coloridas” pela marihuana.

Após descrição, ele concluiu relativizando os achados; neste caso, pôs-se a discutir relações entre fatores exógenos e disposições endógenas no desencadeamento das psicoses. Comentou sobre apresentação de sintomas e achados clínicos em série de pacientes, os quais dividiu em três classes.

1. Fenômenos psicopatológicos agudos (durante a embriaguez)
Grupo 1. (Alterações mentais verificadas)
• Alterações do humor, em geral euforia mas também depressão, apreensão, pânico
• Mudanças no curso do pensamento, loquacidade mas também lentidão
• Diminuição da atenção e da capacidade de reter informações
• Aumento da psicomotricidade, com “necessidade de movimento”
• Alteração da noção (orientação) temporal
• Distúrbios perceptivos (pseudo-alucinações, alucinações verdadeiras)
• Fenômenos delirantes (raros)
• Turvação da consciência

2. Fenômenos psicopatológicos agudos, nos que usaram uma única vez, para fins experimentais.
Grupo 2.
Confirmações ou discretas variações do 1º grupo.

3. Eventuais modificações psíquicas persistentes, encontradas em fumadores habituais.
Grupo 3.
Achados conflitantes.

Para que se sublinhe a atualidade das pesquisas levadas a cabo e a antecipação do professor José Lucena no debate destes assuntos, introduzo classificação constante em importante publicação de psicopatologia, ‘Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais’, (124) obra de referência em nossos dias, escrita pelo professor Paulo Dalgalarrondo, da UNICAMP, acerca das relações entre uso de substâncias psicoativas e psicoses, “De particular interesse à psicopatologia é a diferenciação entre as psicoses tóxicas, as psicoses induzidas por drogas e as psicoses funcionais (esquizofrenias, psicoses afetivas, etc.) desencadeadas por drogas.”

Abordou ainda, o professor Lucena, tema mais árido, “Canabismo e reações delituosas”, (98) em que revisou certo número de pesquisas nacionais e estrangeiros que se ocuparam das relações entre canabismo e criminalidade. Fez uma análise da distribuição das reações delituosas observadas em 269 ‘maconhistas’ detidos pelas autoridades policiais de PE. Opinou que, “o canabismo não possuiria um poder específico para o crime, mas libertaria o indivíduo de suas inibições e as ações resultantes seriam tão variadas quanto as personalidades subjacentes”. Em artigo mais recente, “Algumas mudanças atuais do estilo de dependência de drogas”, (99) publicado em 1987, encerrou com estilo sua análise sobre a questão do ‘maconhismo’. Realizou uma exposição dos critérios da OMS sobre farmacodependência, drogadição ou dependência de drogas (não mais toxicomanias). Fez uma abordagem dos conceitos de dependência física e psíquica (com reservas a tal separação), tolerância, assim como definiu o que seriam uso passageiro, ocasional ou crônico (usos não-médicos das drogas). Situou o problema da “universal difusão do abuso da droga” e emitiu comentários epidemiológicos e sociológicos a respeito. Listou possíveis motivações (conscientes ou inconscientes) ‘responsáveis’ pela conduta psicodependente. Assinalou características da psicodependência na época em que se deu o estudo e comentou sobre condições que poderiam favorecê-la. Dissertou acerca dos diferentes tipos de substância capazes de gerar dependência. Concluiu, com parecer organodinâmico, caracterizando a questão (das drogas),

“Problema humano de causalidade múltipla, em que se uns são dirigidos sobretudo por pulsões hedonistas, outros têm sede do absoluto, e buscam, confundindo fins e meios, escapar ao vazio interior; a dependência de drogas pertence à patologia da liberdade e é, pois, um estado mórbido, que o psiquiatra tem a responsabilidade de compreender e tentar resolver.”.

Nomenclatura da cannabis sativa e de seus produtos ou similares
(presente na obra do professor Lucena).
Maconha, cânhamo, marajuana, marihuana, grifa, sonadora, mota, oliukqui, donajuanita (as sete últimas principalmente no México), diamba, riamba, tiamba, liamba, haschisch, bang, kiff, chira, majoon, fumo da Angola, fumo de caboclo, birra e dirijo (no Pará), pito de frango.

Em determinado momento de sua vida, o professor Lucena passou a mostrar interesse em tema fronteiriço entre as disciplinas psiquiátrica e neurológica, a psicogeriatria, tendo escrito alguns artigos sobre o tema. (118, 120, 123) Tal interesse se deu quando o professor já se encontrava na maturidade, o que levou alguns alunos, em tom jocoso, a afirmar que o mestre passara a ‘legislar em causa própria’. Em um dos trabalhos, ‘Aspectos sócio-culturais da saúde mental na terceira idade’, (123) realizou análise histórica sobre o entendimento da sociedade para com a velhice, que cambiava de um “reconhecimento pessimista” para uma “atitude mais compassiva”. Advertiu que “condições sócio-econômico-ambientais favorecem a precipitação maior de distúrbios mentais nos velhos.” Fez alguns comentários pontuais acerca do tema, a saúde mental na terceira idade, vista sob o ângulo dos aspectos sócio-culturais. Afirmou, sobre doenças nos idosos de baixa renda, “Esses contingentes... não costumam apresentar verdadeiras doenças mentais e sim ‘síndromes psíquicas emocionais ou psicossomáticas, sintomas de privações existenciais’.” Em respeito à heterologia do fato psiquiátrico nesta faixa etária, disse, “... os distúrbios psico-orgânicos não representavam a totalidade das perturbações mentais dos idosos. Um preconceito secular retardara a utilização, em idosos, das novas terapêuticas, possibilitando recuperação.” Quanto à causalidade biológico-orgânica (das doenças mentais), “Algumas doenças mentais senis estão ligadas a doença física da idade madura”. No que toca aos traços psicológicos (dos idosos), “... a vida psíquica do velho é prolongamento da história psicológica anterior”, citando Ajuriaguerra, “Envelhece-se como se viveu.” Referente aos aspectos etiológicos de doença mental, “Conflitos afetivos não resolvidos, defeitos de integração afetivo-instintiva, estados subjetivos persistentes de infelicidade, problemática duradoura no relacionamento humano, na profissão, no casamento, na famíl

     
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